quinta-feira, 19 de abril de 2012


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh’ alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia
que, como um acidente em seu sujeito,
assi com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples, busca a forma.

Este soneto tem sido investigado por todos os estudiosos das concepções filosóficas de Camões, e é em geral considerado como uma confissão de platonismo. A densidade ideológica desafia a condensação de qualquer perífrase. O que Camões nos diz é que, à força de pensar na amada, acaba por fazer parte dela mesma. Não pode, portanto, querê-la, pois, ela já está dentro de si. As duas almas são uma. Que pode, pois, o corpo desejar? Mas, dessa identidade, passa imediatamente à teoria aristotélica de essência e acidente. A essência de Aristóteles é a matéria; mas a matéria é categoria anterior à realidade que, só pela inteligência ou pela passagem do virtual ao real (o acidente), se concretiza e realiza. Assim é a situação do Poeta: ideai pura, tão pura como a matéria simples, mas que busca o acidente que a realize, acidente que é, obviamente, a posse da amada.
O soneto documenta – tudo o indica – conhecimento de noções de filosofia aristotélica, que em todo o caso são utilizados pelo Poeta não especulativamente, mas como uma linguagem para traduzir humanissímos apetites. Quanto a forma e a métrica, este é um tradicional soneto (dois quartetos de dois tercetos), e portanto  seus versos são todos decassílabos (dez sílabas poéticas). É notável o uso de rimas interpoladas.

Um comentário: